O crescimento das Regiões Metropolitanas Brasileiras

Pela primeira vez, algumas das principais regiões metropolitanas do país registraram redução populacional ou crescimento próximo de zero. As variações regionais apontam que as metrópoles de SC e Centro-Oeste conseguiram manter o dinamismo demográfico. Já as metrópoles do Sudeste, Nordeste e do Rio Grande do Sul registraram desacelarações significativas do seu ritmo de crescimento.
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Author

Vinicius Oike

Published

June 15, 2025

As Mudanças Demográficas nas Regiões Metropolitanas Brasileiras

Os resultados do Censo 2022 trouxeram à tona um fenômeno que tem gerado intensos debates sobre o futuro demográfico do Brasil: pela primeira vez em décadas, algumas das principais regiões metropolitanas do país registraram redução populacional ou crescimento próximo de zero. Para melhor compreender esta transformação, vale analisar os dados em uma perspectiva histórica e regional.

Resumo

  • Desaceleração generalizada. As metrópoles brasileiras registram queda nas taxas de crescimento populacional nas últimas décadas. Em 2022, 117 milhões de pessaos moravam em regiões metropolitanas (58% da população brasileira); em 2010, havia 109 milhões. O crescimento anual nas metrópoles foi de 0,59%, valor muito próximo à média brasileira de 0,52%.

  • Crescimento negativo em grandes centros. Rio de Janeiro (-0,13%), Salvador (-0,35%), Porto Alegre (-0,03%) e Belém (-0,11%) apresentam retração populacional. Em alguns casos a capital também registrou perdas populacionais.

  • São Paulo em desaceleração. A população da RM de São Paulo aumentou em cerca de 1 milhão de habitantes, saindo de 19,7 para 20,7 milhões. O crescimento nos últimos 12 anos foi praticamente a metade do registrado no período anterior (2000-2010) quando a população aumentou em 1,8 milhão de habitantes.

  • Florianópolis e Santa Catarina em destaque. A RM de Florianópolis cresceu 2,28%, maior crescimento entre as metrópoles de grande porte. Outros eixos de SC também cresceram acima da média brasileira como Chapecó (1,63%), a Foz do Rio Itajaí (3%), o Vale do Itajaí (1,54%) a Região do Norte/Nordeste Catarinense (1,48%) e a Região Carbonífera (1,23%).

  • Metrópoles do Centro-Oeste ganham espaço. Na contramão de Rio de Janeiro e Salvador, Brasília (RIDE DF) registrou crescimento médio de 1,06%; a população da metrópole aumentou em mais de meio milhão de habitantes, chegando a 4,5 milhões, e se tornou a 4a maior região metropolitana do país, superando Porto Alegre, que estagnou na última década.

  • Cidades médias crescem mais do que grandes centros. As cidades com mais de 1 milhão de habitantes aumentaram sua população em apenas 351 mil habitantes, de 2010 a 2022, e quase metade delas tiveram perdas populacionais. Já as cidades de 100 a 500 mil habitantes aumentaram sua população em 6,4 milhões de habitantes (14,3% de aumento) e quase 90% delas registraram ganhos populacionais.


Crescimento Demográfico nas Regiões Metropolitanas
População total e taxa de crescimento geométrico médio entre cada Censo Demográfico. Tabela mostra apenas as RMs com população superior a um milhão de habitantes em 2022.
Região Metro
Populacao (Mil)
Crescimento (%)
TCG
2000 2010 2022 1991/2000 2000/2010 2010/2022
São Paulo 17.880 19.684 20.732 1,47% 0,88% 0,40% 0.4
Rio de Janeiro 10.967 11.946 11.743 1,05% 0,78% −0,13% -0.1
Belo Horizonte 4.833 5.430 5.734 2,11% 1,06% 0,42% 0.4
RIDE DF 3.118 3.911 4.484 3,06% 2,08% 1,06% 1.1
Porto Alegre 3.783 4.032 4.019 1,43% 0,58% −0,03% 0.0
Fortaleza 3.166 3.741 3.906 2,19% 1,53% 0,33% 0.3
Recife 3.409 3.766 3.808 1,34% 0,91% 0,09% 0.1
Curitiba 2.813 3.224 3.560 2,77% 1,25% 0,77% 0.8
Salvador 3.120 3.574 3.415 1,89% 1,24% −0,35% -0.3
Campinas 2.348 2.809 3.179 2,28% 1,64% 0,96% 1.0
Goiânia 1.704 2.131 2.549 2,92% 2,05% 1,39% 1.4
Manaus 1.726 2.211 2.533 3,17% 2,28% 1,05% 1.1
Vale do Paraíba e Litoral Norte 1.992 2.265 2.506 1,89% 1,17% 0,78% 0.8
Belém 1.973 2.275 2.244 2,53% 1,30% −0,11% -0.1
Sorocaba 1.603 1.871 2.175 2,46% 1,41% 1,16% 1.2
Grande Vitória 1.439 1.688 1.881 2,38% 1,46% 0,84% 0.8
Baixada Santista 1.477 1.664 1.806 1,93% 1,09% 0,63% 0.6
Ribeirão Preto 1.308 1.511 1.648 1,61% 1,32% 0,67% 0.7
Grande São Luís 1.225 1.492 1.646 2,50% 1,81% 0,76% 0.8
Natal 1.172 1.409 1.518 2,20% 1,69% 0,57% 0.6
Norte/Nordeste Catarinense 1.030 1.223 1.481 1,98% 1,57% 1,48% 1.5
AU de Piracicaba-AU- Piracicaba 1.181 1.333 1.467 1,86% 1,11% 0,74% 0.7
Florianópolis 816 1.012 1.357 2,64% 1,97% 2,28% 2.3
João Pessoa 981 1.156 1.304 1,80% 1,51% 0,93% 0.9
Maceió 1.054 1.227 1.301 2,13% 1,39% 0,45% 0.4
RIDE Teresina 1.008 1.151 1.247 1,68% 1,21% 0,62% 0.6
Londrina 897 1.000 1.089 1,30% 0,99% 0,66% 0.7
Vale do Rio Cuiabá 836 944 1.087 1,81% 1,11% 1,09% 1.1

O Contexto da Desaceleração Demográfica

Os dados mostram um cenário de clara desaceleração do crescimento populacional nas principais regiões metropolitanas brasileiras. São Paulo, que manteve taxas de crescimento de 1,47% ao ano na década de 1990, viu este ritmo cair para 0,88% entre 2000-2010 e apenas 0,4% no período mais recente. O Rio de Janeiro apresenta situação ainda mais dramática, com crescimento negativo de -0,13% entre 2010-2022, indicando redução populacional.

Como comentado em outros posts, o número de nascimentos no Brasil está em tendência de queda; de fato, em 16% dos municípios há mais óbitos do que nascimentos. Do outro lado, a população está envelhecendo, sobretudo no Sul e no Sudeste. Esta mudança demográfica sinaliza um aperto da razão de dependência no longo prazo e maiores dificuldades para manter o crescimento econômico.

Ainda que o Brasil siga se urbanizando, o mais recente Censo Demográfico trouxe um primeiro alertas às cidades brasileiras. Ainda é cedo para entender a motivação das quedas populacionais em alguns centros, mas pode-se especular que a mistura de aumento de custo de vida, baixo crescimento da renda e aumento de insegurança foram alguns dos principais fatores.

Diferentes Dinâmicas Regionais

A análise dos dados revela padrões regionais distintos que refletem as transformações econômicas e sociais do país.

RMs do Sudeste
População total e taxa de crescimento geométrico médio entre cada Censo Demográfico.
Região Metro Pop. 2022
Crescimento (%)
TCG
1991/2000 2000/2010 2010/2022
São Paulo 20.732.000 1,47% 0,88% 0,40% 0.4
Rio de Janeiro 11.743.000 1,05% 0,78% −0,13% -0.1
Belo Horizonte 5.734.000 2,11% 1,06% 0,42% 0.4
Campinas 3.179.000 2,28% 1,64% 0,96% 1.0
Vale do Paraíba e Litoral Norte 2.506.000 1,89% 1,17% 0,78% 0.8
Sorocaba 2.175.000 2,46% 1,41% 1,16% 1.2
Grande Vitória 1.881.000 2,38% 1,46% 0,84% 0.8
Baixada Santista 1.806.000 1,93% 1,09% 0,63% 0.6
Ribeirão Preto 1.648.000 1,61% 1,32% 0,67% 0.7
AU de Piracicaba-AU- Piracicaba 1.467.000 1,86% 1,11% 0,74% 0.7
AU de Jundiaí 844.000 2,18% 1,71% 1,46% 1.5
Vale do Aço 718.000 0,59% 0,78% 0,03% 0.0

No Sudeste, observa-se uma clara desaceleração: além de São Paulo e Rio de Janeiro, mesmo regiões tradicionalmente dinâmicas como Campinas (0,96%) e Vale do Paraíba (0,78%) apresentaram crescimento modesto. Belo Horizonte manteve algum dinamismo (0,42%), mas bem abaixo dos padrões históricos. A RM de BH demonstra um padrão de “fuga da capital”, explorado em detalhes adiante: enquanto a metrópole ganhou populacão, a capital perdeu.

O Sul apresenta o cenário mais heterogêneo do país. Enquanto Porto Alegre encolhe (-0,03%), regiões como Florianópolis (2,28%) lideram o crescimento nacional. Metrópoles médias como Chapecó (1,63%), Maringá (1,34%) e a região Carbonífera de Santa Catarina (1,23%) demonstram forte vitalidade econômica, refletindo o dinamismo do agronegócio e da indústria regional.

População total e taxa de crescimento geométrico médio entre cada Censo Demográfico.
Região Metro Pop. 2022
Crescimento (%)
TCG
1991/2000 2000/2010 2010/2022
Curitiba 3.560.000 2,77% 1,25% 0,77% 0.8
Londrina 1.089.000 1,30% 0,99% 0,66% 0.7
Maringá 852.000 1,65% 1,37% 1,34% 1.3
Cascavel 552.000 0,94% 0,75% 1,07% 1.1
Toledo 419.000 0,08% 0,98% 1,20% 1.2
Campo Mourão 342.000 −1,11% −0,33% 0,18% 0.18
Umuarama 325.000 −0,93% 0,30% 0,64% 0.64
Apucarana 296.000 −0,22% 0,18% 0,18% 0.18
População total e taxa de crescimento geométrico médio entre cada Censo Demográfico.
Região Metro Pop. 2022
Crescimento (%)
TCG
1991/2000 2000/2010 2010/2022
Norte/Nordeste Catarinense 1.481.000 1,98% 1,57% 1,48% 1.5
Florianópolis 1.357.000 2,64% 1,97% 2,28% 2.3
Vale do Itajaí 842.000 2,14% 1,94% 1,54% 1.5
Foz do Rio Itajaí 782.000 3,98% 3,23% 3,00% 3.0
Carbonífera 645.000 1,52% 1,15% 1,23% 1.2
Contestado 539.000 1,19% 0,60% 0,58% 0.6
Chapecó 535.000 0,79% 1,12% 1,63% 1.6
Tubarão 405.000 1,21% 0,86% 0,98% 1.0
Lages 363.000 0,70% 0,04% 0,26% 0.26
Extremo Oeste 351.000 −0,34% 0,19% 0,49% 0.49
Alto Vale do Itajaí 310.000 0,83% 0,92% 1,08% 1.1
População total e taxa de crescimento geométrico médio entre cada Censo Demográfico.
Região Metro Pop. 2022
Crescimento (%)
TCG
1991/2000 2000/2010 2010/2022
Porto Alegre 4.019.000 1,43% 0,58% −0,03% 0.0
Serra Gaúcha 801.000 2,06% 1,50% 0,66% 0.7
AU do Sul 572.000 1,00% 0,33% −0,08% -0.08
AU do Litoral Norte 361.000 3,26% 1,86% 1,86% 1.9

No Centro-Oeste, todas as regiões metropolitanas tiveram crescimento. Goiânia (1,39%) ultrapassou Belém (-0,11%) e Manaus (1,05%), chegando a 2,56 milhões de habitantes e se tornou a \(11^{\text{a}}\) maior região metrpolitana. Já Brasília (1,06%) ultrapassou Porto Alegre (-0,03%) e se tornou a \(4^{\text{a}}\) maior metrópole do país com 4,5 milhões de habitantes. O Vale do Rio Cuiabá também registrou forte crescimento (1,09%) e ultrapassou a marca de 1 milhão habitantes.

O Nordeste foi a região com menor crescimento populacional. A taxa de crescimento anual da região (0,35%) ficou abaixo da média do país e, em termos absolutos, a região cresceu menos do que o Centro-Oeste, apesar da sua população total ser três vezes maior.

A RM de Salvador é o destaque negativo: a metrópole perdeu mais de 100 mil habitantes; Fortaleza (0,33%) e Recife (0,09%) também mostram sinais de estagnação. O crescimento foi fraco também no interior, quase todas as metrópoles de Alagoas e da Paraíba registraram quedas populacionais: Caetés, AL (-1,05%), Vale do Paraíba, AL (-0,98%) Zona Da Mata, AL (-0,73%), Vale do Paincó, PB (-0,24%) e Guarabira, PB (-0,04%) somente para citar algumas.

Apesar de influxo migratório e estrutura demográfica favorável, a Região Norte cresceu relativamente pouco. Manaus (1,05%) foi o destaque, crescendo em mais de 300 mil habitantes. Já Belém perdeu população (-0,11%), enquanto Porto Velho (0,06%) e Macapá (0,08%) praticamente estagnaram.

O Crescimento das Cidades Médias e Novos Polos Econômicos

Em termos agregados, as cidades de médio porte “ganharam” muitos mais habitantes do que as megalópoles de mais de um milhão de habitantes. Enquanto

Nuances regionais: o caso de Belo Horizonte

A RM de Belo Horizonte ilustra um processo de redistribuição populacional. Enquanto a capital mineira registrou perda populacional de quase 60 mil habitantes, passando de 2,375 milhões para 2,316 milhões entre 2010 e 2022 (queda de -0,21%), a população da região metropolitana como um todo cresceu 0,42% ao ano no mesmo período. Em termos absolutos, a RM de Belo Horizonte ganhou pouco mais de 300 mil habitantes (crescimento de 5,6%).


Esta migração intra-metropolitana, onde a população migra da capital para as periferias, pode apontar uma busca por melhor qualidade de vida, menores custos habitacionais e novas oportunidades. Este tipo de movimentação também pode sinalizar uma saturação da capital, resultado de várias causas, incluindo: aumento da violência urbana, saturação da infraestrutura viária, aumento do custo de vida, piora na qualidade e oferta de serviços públicos. No caso de BH, parte deste processo se deve aoPlano Diretor excessivamente restritivo da cidade, que dificulta a expansão imobiliária na cidade1.

Nova Lima foi a cidade que mais se beneficiou deste processo migratório. A cidade registrou crescimento explosivo de 2,71% ao ano, saltando de 80.998 para 111.697 habitantes - um aumento de quase 38% em apenas 12 anos. A cidade tem localização estratégia, próxima à região Centro-Sul da capital mineira, facilitando o deslocamento para regiões com empregos de alta qualidade. Além disso, a cidade possui código de obras mais flexível, permitindo maior verticalização e adensamento populacional.

O padrão se repete em outros municípios da região: São José da Lapa (2,32%), Mateus Leme (2,59%), Igarapé (2,31%) e Itatiaiuçu (2,25%) apresentam crescimento robusto, evidenciando que o dinamismo metropolitano se deslocou para a periferia. Mesmo municípios menores como Florestal (1,66%) e Fortuna de Minas (1,12%) participam desse processo de redistribuição.

Footnotes

  1. A perda de 60 mil habitantes no município entre 2010 e 2022, segundo dados do último Censo realizado pelo IBGE, é o resultado de uma política urbana deliberada. Leis de uso do solo restringem o potencial de construção dos terrenos, inviabilizando a ampliação do estoque imobiliário para sustentar a demanda de crescimento populacional e renda, principalmente nas áreas centrais, causando a dispersão da população e a planificação do seu perfil de densidade.↩︎